Vereadora Sônia Meire promove Audiência Pública com o tema ‘Vidas Negras Importam: A voz das famílias na luta contra a violência’
A vereadora Sônia Meire (PSOL) realizou nesta sexta-feira (06), no plenário da Câmara Municipal de Aracaju (CMA), a Audiência Pública intitulada ‘Vidas Negras Importam: A voz das famílias na luta contra a violência’. Participaram da mesa, além da vereadora, a advogada e doutora em sociologia Aline Passos, o coordenador do Movimento Negro Unificado, Roberto Amorim, o presidente da Comissão de Igualdade Racial da OAB/SE, Carlos Zuzart, e Verônica Evangelista, mãe do jovem Ithalo Santos.
Roberto Amorim destacou a desigualdade enfrentada pelos corpos negros em diversos espaços:
“Nossos corpos, quando estão em determinados espaços, são considerados suspeitos. Quando existe uma abordagem policial apontando que nós não somos dali, as intervenções são diferenciadas. Os negros tiveram atributos construídos historicamente neste país. E os fatos que estamos comentando já vem acontecendo há muito tempo no nosso estado, mas hoje nós temos lugar de fala, de denúncia, e ocupamos espaços de poder. Eles não têm o poder de justiçamento, mas eles estão de posse de amplos poderes e há uma necessidade das câmeras sim, porque a autoridade se sobressai como um dos principais valores da sua profissão”, afirmou.
Verônica Evangelista, mãe de Ithalo Santos, jovem morto em uma abordagem policial em Aracaju no final de outubro, ressaltou que, apesar da dor, prefere falar sobre amor, porque o preconceito já alimenta que as pessoas são melhores que as outras devido a sua cor.
“Meu filho foi morto em uma abordagem policial, e espero que a segurança pública do estado de Sergipe me diga qual foi o verdadeiro motivo da abordagem de Ithalo Santos do Nascimento. Dizem que ele ‘olhou excessivamente para a polícia’. Desde quando olhar excessivamente para alguém dar o direito de abordar? E isso dar o direito de sacar uma arma e fazer o disparo? Não consigo não olhar o preconceito nisso tudo. No começo do dia ele era um marginal, ao meio-dia ele passou a ser vítima, e à noite ele já era um suicida. Cinco para um, e foi legítima defesa, segundo eles. Não aceito essa explicação”, disse Verônica.
Aline Passos, advogada e doutora em sociologia, enfatizou os desafios da letalidade policial e da segurança pública:
“Já não tenho mais palavras para me dirigir às famílias enlutadas pela letalidade policial deste país. Sabemos como são as abordagens policial com pessoas negras, e não conseguimos construir um horizonte quando se fala em segurança pública. Quanto piores os números apresentados, mais investimentos a segurança pública recebe, o que vai de encontro com todo o resto da sociedade. No Brasil, é normalizado que o sujeito tenha arma e tenha voto, o que na ciência política é um grande paradoxo, porque o debate público precisa acontecer fora da ameaça das armas. O medo é instrumento muito poderoso e a gente precisa superar o medo e eu não sei como”, destacou.
O advogado Carlos Zuzart, Presidente da Comissão de Igualdade Racial da OAB/SE, comentou que o racismo é bizarro e opera de forma monstruosa:
“As vidas dos negros importam para quem? Nossos representantes esquecem que as nossas vidas importam. Muitos negros se inviabilizam na sociedade por conta do contexto racista e, para serem aceitos, muitas vezes ignoram isso. Estamos em um verdadeiro extermínio da população negra, e a sociedade tem sido uma aliada, hoje, para que isso seja exposto. O serviço público deve servir à sociedade e as instituições precisam trabalhar para que a população seja cuidada. Estamos em uma sociedade em que 60% se autodeclaram negra e precisamos de fato trabalhar para esse povo”, afirmou.
A vereadora Sônia Meire encerrou a audiência reforçando a importância do debate:
“Não vamos permitir que distorçam nossas falas. Vamos continuar ocupando os espaços que são nossos, tanto na rua quanto aqui dentro. Muitas vezes, narrativas são criadas para nos calar, mas vamos continuar dando espaço para que nossas falas ecoem. Aqui dentro, sozinha, não mudamos a realidade, mesmo propondo projetos de leis. Não podemos deixar de nos organizar do lado de fora, o que vai mudar a realidade é a construção com participação dos movimentos sociais. Agradeço a todos que estão na luta e que estiveram hoje juntos no debate”, finalizou a vereadora.