Câmara de Aracaju realiza Sessão Especial em defesa da vida das mulheres
Na tarde desta quinta-feira (5), a Câmara Municipal de Aracaju realizou uma sessão especial em defesa da vida das mulheres. O encontro foi presidido pela vereadora professora Sonia Meire (Psol) e reuniu representantes de movimentos sociais, ativistas e autoridades para discutir o enfrentamento à violência e chamar atenção para crimes como feminicídio, transfeminicídio e racismo. Durante a sessão, participantes destacaram a importância de ampliar o debate sobre a violência de gênero e reforçar a construção de políticas públicas voltadas à proteção das mulheres. O encontro também integrou as mobilizações em torno do Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, data que simboliza a luta histórica por direitos, dignidade e igualdade.
Ao abrir a sessão, a vereadora Sonia Meire destacou o papel histórico das mulheres nas mobilizações sociais e a importância do 8 de março como marco de luta. “Apesar de nós não pararmos de lutar, cada ano tem sido mais intenso. Historicamente, as mulheres têm tido protagonismo nas lutas sociais. Para nós, mulheres, o ano não começa depois do Carnaval. O ano começa com as lutas do 8 de março, que é o Dia Internacional das Mulheres. Por isso estamos aqui", enfatizou.
A pedagoga e representante da Rede de Mulheres Negras de Sergipe, Jeanne Marquise, destacou a importância da mobilização das mulheres diante da violência e das desigualdades ainda presentes na sociedade. “Nós, mulheres, somos maioria e todos os dias acordamos com o dever de empoderar outras mulheres, de transformar dor em luta. O 8 de março não é uma data comercial. É uma data em memória das mulheres que lutaram por direitos trabalhistas, por dignidade e por voz. É símbolo de coragem, mas também um momento de reflexão: que sociedade estamos construindo para as nossas mulheres? Em pleno século XXI, ainda precisamos falar sobre o direito básico de viver todos os dias. Feminicídio não é um crime comum, é o assassinato de mulheres pelo simples fato de serem mulheres. É a expressão mais cruel da desigualdade de gênero".
Jeanne também acrescentou que "cada mulher assassinada deixa filhos órfãos, famílias destruídas e uma sociedade ferida. Quando uma mulher é vítima de feminicídio, falhamos todos, falha o agressor, falha o silêncio cúmplice, falha a cultura machista que naturaliza a violência e falham as políticas públicas quando não alcançam quem mais precisa. Precisamos transformar luto em luta todos os dias".
A diretora da Secretaria da Mulher Trabalhadora da Central Única dos Trabalhadores em Sergipe (CUT-SE), Adenilde de Souza, também ressaltou a gravidade dos índices de violência contra mulheres no Brasil. “É sobre o sangue, o que mais escorre no asfalto é o sangue das mulheres, porque nós somos maioria dessa população. Esse sangue que está escorrendo todos os dias, a cada 11 minutos no mundo e a cada 4 minutos no Brasil, é o sangue de mulheres negras, periféricas, transexuais, mulheres com várias identidades, mas são mulheres. E elas são mortas pelo simples fato de serem mulheres. Não podemos falar de representação sem falar do direito básico de permanecer viva. Quem diz que a cada 11 minutos morre uma mulher no mundo é a Organização das Nações Unidas (ONU). No Brasil, os dados nos envergonham. Somos um dos países mais perigosos para as mulheres, tanto para as mulheres cis quanto para as mulheres trans", enfatizou.
A presidente da Associação de Travestis e Transexuais de Sergipe, Maluh Andrade, destacou a necessidade de ampliar o diálogo com os homens sobre violência de gênero. “A casa podia estar lotada de homens, porque essas discussões são para eles. São eles que precisam escutar. Ainda há alguns homens presentes, que são os homens que trabalham na casa, mas é preciso que a sociedade, enquanto masculinidade, reflita: que masculinidade é essa que nos fere todos os dias, que nos violenta todos os dias e que potencializa essa violência na sociedade como um todo? O ideal seria a presença deles, mas infelizmente essa não é a nossa realidade", indagou.
A estudante de Serviço Social da Universidade Federal de Sergipe e integrante do coletivo Afronte, Laura Brandino, também refletiu sobre o processo de conscientização dentro do movimento feminista. "Quanto mais você se conscientiza, quanto mais você aprende sobre a violência, mais você começa a ficar na defensiva. Você sofre muito. Acho que o primeiro passo do feminismo é você começar a sofrer, é estar de luto pela vida que você poderia ter se não fosse pelo machismo, se não fosse pelo patriarcado. Aí você se reconhece enquanto mulher e, para mim, o próximo passo é se reconhecer enquanto coletivo, enquanto mulheridades, porque só assim a gente consegue sustentar esse luto que é viver essa vida sempre na luta, sempre tentando rebater", destacou.